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Existe por aí um assaltante perigoso e excêntrico; com uma pistola em punho, ele arrebata a carteira da vítima e, ao fugir, justifica-se assegurando que repassará todo o dinheiro roubado a Bebel Gilberto, Maria Bethânia, Fernando Meirelles ou a um grupo de música gospel ”de que gosta muito”. Curiosamente, a maioria das vítimas não se incomoda muito com o roubo, nem com o funesto destino do dinheiro roubado; de fato, algumas delas não têm sequer consciência de que foram assaltadas. Certas vítimas, apresentando evidentes sequelas mentais, chegam até a parabenizar o assaltante por ”incentivar a produção cultural nacional”. Apenas em 2011, estima-se que o ladrão, cujo apelido é MinC, tenha roubado o montante de 2.2 bilhões de reais.

Modo de operação do MinC/Lei Rouanet

Modo de operação do MinC/Lei Rouanet. A foto da cantora Bebel Gilberto curtindo a vida em Nova York, onde mora, é do site http://newyork.grubstreet.com/2009/06/brazilian_musician_bebel_gilbe.html

Segundo informações da Polícia Federal, o assaltante é cúmplice do famoso golpista Vânder Lei Rouanet, em atividade há mais de 20 anos. Lei Rouanet apresenta-se a empresas como contador; ele as persuade de que é lícito doar 4% dos seus impostos devidos a uma suposta organização filantrópica de incentivo à cultura, dispondo-se a mediar a transferência do dinheiro; na realidade, Lei Rouanet transfere todo o dinheiro obtido ao bandido MinC, e sonega o mesmo valor na declaração ao Fisco. Calcula-se em 9.1 bilhões de reais o valor total obtido por Lei Rouanet entre 1991 e 2011, dos quais 1.2 bilhão somente no ano passado. 

MinC e Lei Rouanet não subsidiam não subsidia designers gráficos

Aparentemente MinC e Lei Rouanet não subsidiam designers gráficos

Transita atualmente no Congresso projeto de lei que autoriza Lei Rouanet a aumentar em 50% o valor de cada golpe.

Deve-se a Sérgio Buarque de Holanda e, mais precisamente, a seu livro Raízes do Brasil (publicado em 1936) a tese, hoje bastante arraigada no Brasil, de que o povo brasileiro é cordial. Como toda boa tese de sociologia, é empiricamente inverificável; dado que o atributo “cordialidade” não está rigorosamente definido, não se pode mensurá-lo nem realizar comparações significativas. Bem ao contrário, a violência numa sociedade pode ser quantificada e comparada a outras com alguma precisão, p.ex. , através da taxa de homicídios por número de habitantes. De fato, o Instituto Sangari publicou recentemente seu relatório anual sobre a violência homicida no Brasil (Mapa da Violência 2012), em que se encontra o seguinte quadro comparativo do número de homicídios no Brasil e nos países e regiões envolvidos nos maiores conflitos armados do mundo de 2004 a 2007:

Comparativo - homicídios no Brasil e no mundo

Fonte: Mapa da Violência 2012 – Instituto Sangari (http://www.sangari.com/mapadaviolencia/pdf2012/mapa2012_web.pdf)

Observa-se que o número total de homicídios no Brasil (193 mil) foi superior à soma de todos os 12 conflitos armados listados (170 mil). Quanto à taxa média de homicídios no período, apenas três países apresentaram-na superior a 12,0 mortes/100 mil habitantes: a Somália, com 24,4; o Brasil, com 25,7; e o Iraque, com 64,9. A chance de morrer em países em guerra como o Afeganistão, o Sudão ou Israel/Palestina é, portanto, bastante inferior à chance de ser assassinado no cordial Bananão.

Quando confrontado com o grave problema de corrupção que assola o país, o brasileiro frequentemente pontifica que “corrupção existe em todo lugar”. É algo inerente à natureza humana, às estruturas de poder, ou a ambas; portanto, inexorável como a gravidade e ubíqua como os ratos. Tudo isso é provavelmente verdade. A falácia esconde-se, porém, nas entrelinhas: subentende-se que a corrupção não admita gradação, isto é, que o nível de corrupção seja o mesmo em todo lugar – algo patentemente falso. De fato, a ONG Transparência Internacional mensura anualmente a corrupção governamental em países do mundo inteiro, atribuindo um índice de 0 a 10 a cada um deles; quanto menor o índice, maior o nível de corrupção. As diferenças entre países e regiões são nítidas, como se observa no mapa abaixo:

Uma grande tendência salta aos olhos: os países em que há maior intervenção do Estado na economia são sistematicamente mais corruptos que aqueles de pendor mais liberal; em outras palavras, os países menos corruptos são aqueles que compõem a civilização ocidental (Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental e do Norte, Austrália, Nova Zelândia), juntamente com o Japão, Singapura, Hong Kong e Taiwan, na Ásia; o Chile e o Uruguai, na América do Sul; o Catar e os Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio; e Botsuana, na África. E o Brasil? É bastante corrupto, com nota 3,8; em ordem decrescente de corrupção, situa-se em 73º lugar (empatado com a Tunísia) entre os 182 países analisados.

Em 2007, o instituto Ipsos realizou uma pesquisa com 1000 pessoas em 70 municípios de 9 regiões metropolitanas brasileiras; perguntou-se aos entrevistados a localização de certos países no mapa-múndi, a  começar pelo próprio Brasil. O resultado foi assombroso: 50% do total de entrevistados não souberam localizar corretamente o Brasil no mapa; restringindo-se àqueles que concluíram o ensino médio, o número cai para 30% – uma fração ainda altíssima. Em se tratando de outros países, a situação mostrou-se  obviamente pior: não mais que 18% são capazes de localizar corretamente os Estados Unidos, e reles 3% sabem onde fica a França. Tais dados, assim como o infográfico abaixo, foram publicados em matéria da revista Veja de 07/11/2007.

Diante de quadro tão calamitoso, um brasileiro que saiba localizar a França ou o Japão no mapa pode perder toda a esperança no País, querer fugir para bem longe. E por que não? Sempre é possível visitar a terra natal novamente, sobretudo no caso do Brasil: se metade dos brasileiros não sabem onde estão, podemos ter certeza de que o País não sairá do lugar.

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